Religiões de Matriz Africana: conhecendo a Umbanda, sua fé e sua ancestralidade
Falar sobre religiões de matriz africana é falar sobre fé, resistência, memória e ancestralidade. É reconhecer tradições que ajudaram a formar a identidade cultural do Brasil e que continuam vivas por meio dos terreiros, das comunidades e dos ensinamentos transmitidos entre gerações.
Entre essas tradições está a Umbanda, uma religião brasileira marcada pelo acolhimento, pela prática da caridade, pelo respeito à natureza e pela conexão com os Orixás, as entidades espirituais e os ancestrais.
Conhecer a Umbanda é um passo importante para romper preconceitos e compreender uma parte profunda da história e da espiritualidade do povo brasileiro.
O que são religiões de matriz africana?
A expressão “religiões de matriz africana” é utilizada para falar de diferentes tradições religiosas que possuem vínculos com conhecimentos, espiritualidades e culturas trazidas ao Brasil por povos africanos.
Durante o período da escravização, milhões de africanos foram retirados de seus territórios e trazidos à força para o país. Mesmo enfrentando perseguições, violências e tentativas de apagamento cultural, esses povos preservaram e reconstruíram seus conhecimentos, suas crenças, seus cantos, seus símbolos e suas formas de se relacionar com o sagrado.
Esses saberes também se encontraram com tradições indígenas e com outras influências presentes na sociedade brasileira. Desse processo histórico surgiram diferentes manifestações religiosas.
É importante compreender que não existe apenas uma religião de matriz africana. Umbanda, Candomblé, Batuque, Tambor de Mina, Xangô do Nordeste e outras tradições possuem histórias, fundamentos e formas próprias de organização.
O que é a Umbanda?
A Umbanda é uma religião brasileira que reúne influências africanas, indígenas, cristãs, espíritas e populares. Sua formação aconteceu por meio de um processo histórico amplo, desenvolvido em diferentes comunidades e regiões do Brasil.
Embora existam narrativas que marcam o início da Umbanda no começo do século XX, sua construção não pode ser resumida a um único momento ou personagem. A religião foi formada por diferentes encontros culturais, experiências espirituais e práticas comunitárias.
A Umbanda ensina valores como:
- Caridade;
- Respeito;
- Humildade;
- Responsabilidade;
- Evolução espiritual;
- Cuidado com o próximo;
- Valorização da natureza;
- Respeito aos ancestrais.
Não existe apenas uma maneira de praticar a Umbanda. Cada terreiro pode possuir fundamentos, rituais, vestimentas, cantos e formas de trabalho diferentes. Por isso, encontramos diversas vertentes, como Umbanda Popular, Umbanda Tradicional, Umbanda Omolocô, Umbanda Esotérica e Umbanda Sagrada, entre outras.
Apesar das diferenças, o acolhimento e a prática da caridade ocupam um lugar central em muitas casas.
O terreiro de Umbanda
O terreiro é o espaço onde acontecem as cerimônias, os atendimentos espirituais, os estudos, as celebrações e os trabalhos comunitários.
Mais do que um espaço físico, o terreiro é um lugar de fé, aprendizado, cuidado e convivência. É nele que conhecimentos são transmitidos por meio da oralidade, da experiência e do respeito às pessoas mais velhas e às lideranças religiosas.
Cada casa possui suas normas, seus fundamentos e sua forma de organização. Ao visitar um terreiro, é importante respeitar suas orientações, sua hierarquia e seus momentos sagrados.
Nem tudo dentro de uma religião precisa ser fotografado, divulgado ou explicado publicamente. Alguns conhecimentos pertencem à vivência da comunidade e devem ser tratados com responsabilidade.
Quem são os Orixás na Umbanda?
Na Umbanda, os Orixás são compreendidos como forças divinas relacionadas à natureza, à criação e aos diferentes aspectos da existência.
Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Oxum, Iemanjá, Iansã, Nanã, Obaluayê e Oxumarê estão entre os Orixás cultuados em muitas casas. Entretanto, a maneira de compreender suas qualidades, seus símbolos e suas atuações pode variar de um terreiro para outro.
Os Orixás podem estar relacionados às matas, aos rios, aos mares, aos ventos, ao fogo, à terra, à justiça, à sabedoria, à cura e aos caminhos da vida.
Eles não devem ser tratados como personagens ou elementos meramente decorativos. São sagrados e representam fundamentos religiosos profundos para seus praticantes.
Orixás e entidades são a mesma coisa?
Orixás e entidades espirituais não são a mesma coisa.
Os Orixás são forças divinas e princípios sagrados. Já as entidades trabalham nas linhas espirituais da Umbanda, auxiliando por meio de orientações, passes, aconselhamentos e trabalhos de caridade.
Entre as linhas mais conhecidas estão:
- Caboclos;
- Pretos-Velhos;
- Crianças ou Erês;
- Baianos;
- Boiadeiros;
- Marinheiros;
- Ciganos;
- Exus;
- Pombagiras.
Cada linha possui formas próprias de manifestação e trabalho. Também existem diferenças entre as casas, por isso nenhuma explicação isolada representa toda a diversidade da Umbanda.
Pretos-Velhos, Caboclos, Exus e Pombagiras, por exemplo, não devem ser associados ao mal. Essa interpretação nasce frequentemente do preconceito e da intolerância religiosa, e não da compreensão dos fundamentos da Umbanda.
A importância da ancestralidade
A ancestralidade ocupa um lugar importante na Umbanda. Ela representa a ligação com aqueles que vieram antes de nós, com as experiências coletivas e com os conhecimentos transmitidos entre gerações.
Os Pretos-Velhos, por exemplo, manifestam arquétipos ligados à sabedoria, à paciência, ao acolhimento e à resistência. Os Caboclos carregam força, conhecimento, coragem e profunda conexão com a natureza.
Essas linhas não devem ser reduzidas a fantasias ou estereótipos. Elas representam memórias, identidades e ensinamentos que precisam ser apresentados com respeito.
Honrar a ancestralidade é reconhecer que não caminhamos sozinhos. Somos parte de histórias que começaram antes de nós e que continuarão depois de nossa passagem.
Umbanda e Candomblé são a mesma religião?
Não. Umbanda e Candomblé são religiões diferentes.
O Candomblé preserva tradições originadas em diferentes povos africanos e se organiza em nações, como Ketu, Jeje e Angola, cada uma com seus fundamentos, idiomas litúrgicos e formas de culto.
A Umbanda nasceu no Brasil e reúne influências africanas, indígenas, cristãs, espíritas e populares brasileiras. Nela, além da relação com os Orixás, existe o trabalho espiritual realizado por diferentes linhas de entidades.
As duas religiões possuem aproximações históricas e culturais, mas não devem ser confundidas. Conhecer suas diferenças é uma demonstração de respeito.
Em nosso próximo conjunto de conteúdos, vamos aprofundar primeiramente os conhecimentos introdutórios sobre a Umbanda. Posteriormente, criaremos uma área específica para apresentar a história, as tradições e a diversidade do Candomblé.
Respeito e liberdade religiosa
Durante muito tempo, as religiões de matriz africana foram perseguidas, criminalizadas e apresentadas de maneira preconceituosa. Terreiros foram invadidos, objetos sagrados foram apreendidos e praticantes sofreram violência por causa de sua fé.
Esse preconceito ainda existe. Muitas agressões dirigidas à Umbanda e ao Candomblé também são formas de racismo religioso, porque atingem tradições profundamente relacionadas à história e à identidade da população negra.
Respeitar não significa necessariamente seguir ou praticar uma religião. Significa reconhecer o direito de cada pessoa viver sua fé com liberdade, segurança e dignidade.
Conhecer também é uma forma de respeitar
A Umbanda é uma religião de fé, caridade, acolhimento e conexão com a ancestralidade. Seus terreiros preservam conhecimentos, fortalecem comunidades e oferecem amparo espiritual a muitas pessoas.
Este é apenas o começo da nossa caminhada.
No espaço Saberes da Ancestralidade, vamos conversar sobre os Orixás, as entidades, as linhas de trabalho, as saudações e os significados presentes na Umbanda. Faremos isso com cuidado, reconhecendo a diversidade existente entre os terreiros e respeitando os conhecimentos que não pertencem ao espaço público.
Na SUA GINGA, acreditamos que conhecer uma história é uma forma de preservá-la. Vestir ancestralidade é carregar símbolos, identidades e memórias com respeito e responsabilidade.
Conhecer também é uma forma de respeitar.
Vestir cultura também é manter a ancestralidade viva.
Continue essa caminhada
Acompanhe os próximos conteúdos do Saberes da Ancestralidade e conheça também as coleções da SUA GINGA, criadas para celebrar cultura, identidade, fé e pertencimento.